Crise de identidade e a necessidade da teologia apologética

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Por Leonardo G. Silva - Th.M.


A crise de identidade do evangelicalismo brasileiro definitivamente não é coisa nova, e encontra sua justificativa na própria história do nosso país. Os primeiros habitantes da nossa terra foram os indios, adeptos do xamanismo. Logo vieram os portugueses, mas não os portugueses “gente-fina”, e sim os adúlteros, bandidos, assassinos e pervertidos – cuja sentença era a forca ou o exílio na “Terra de Santa Cruz”. O que você escolheria? Pois é; eles também... Os portugueses trouxeram os negros da África, e estes também trouxeram sua religião e suas crenças. Depois aportaram em nossas praias espanhóis e holandeses, uns católicos e os outros (bem poucos) protestantes. Já numa época mais contemporânea, principalmente no período das duas grandes guerras, vieram também os japoneses, italianos, poloneses, alemães e tantos outros que é impossivel mencionar exaustivamente. Cada qual chegou aqui com a sua bagagem, sua religião, suas crenças, sua cultura. Foi essa mistura de crenças que deu origem ao que nós chamamos (ironicamente) de “nossa” cultura, a cultura brasileira.

Essa mistura de raças e crenças deu origem a um sincretismo tão grande como nunca se viu na história de nenhuma outra nação. Essa “mistureba”, essa “sopa de entulho”, esse “virado” acabou repercutindo fortemente na religião, o que contribuiu definitivamente para o desenvolvimento de um quadro religioso anárquico, que importa os dogmas de outras crenças com uma facilidade incrível. Não conheço outros países fora da nossa realidade latino-americana, mas creio que do ponto de vista religioso nenhum país latino-americano é tão entregue à crendices como o Brasil.

A igreja evangélica brasileira nasceu nesse contexto histórico-cultural. Hoje, em meio a outra centena de crenças, a religiosidade que afirma que a Bíblia é o único dogma encontra dificuldades para se afirmar. O evangelicalismo tupiniquim já manquejou muito, deixou-se seduzir pelo henoteísmo católico-romano, tropeçou no xamanismo guarani, trocou olhares com a filosofia pluralista e relativista japonesa, se encantou com a ginga do candomblé e ultimamente anda de mãos dadas com o pragmatismo norte-americano. Todos sabemos que o povo brasileiro é, culturalmente falando, uma verdadeira “esponja” absorvendo tudo ao seu redor, e infelizmente com a igreja isso não é diferente. Ela tem tomado os moldes da cultura que a cerca, absorvendo todos os modismos, heresias, feitiçarias e congêneres.

Como brasileiro, conhecedor da igreja brasileira e crente evangélico, creio que tenho autoridade suficiente para falar acerca do tema. E expressando a minha opinião, creio que a igreja brasileira precisa urgentemente de pastores apologistas, obreiros apologistas, membros apologistas e de uma teologia essencialmente apologética. Somente uma teologia verdadeiramente apologética pode restaurar, ao menos parcialmente, a credibilidade do protestantismo nesse país. E atenção: quando falo de teologia apologética, não estou me referindo aos best-sellers norte americanos que, apesar de ser muito interessantes, estão muito longe da realidade evangélica brasileira. Sou amante da apologética cristã, seja ela americana, alemã ou inglesa. Amo livros de apologética – mesmo os “importados” – mas como obreiro tupiniquim entendo que aqueles que estão “lá fora” não têm condições de tratar os problemas da igreja brasileira. Ora, a verdade é que enquanto o Geisler, Craig, Platinga e o Philip Johnson estão preocuopados em discutir temas como evolucionismo, relativismo e teísmo aberto, o evangélico brasileiro está preocupado com questões como reencarnação, teologia da prosperidade, quebra de maldição, cair no espírito e xamanismo. Não estou criticando os escritores americanos (eu mesmo tenho uma coleção de livros do Norman Geisler, do Craig, do Lee Strobel, uns 15 volumes de C.S. Lewis, etc); reconheço que esses escritores são bons, mas acontece que eles escrevem de acordo com a realidade que eles vivem, e não com a realidade que nós vivemos! Mas é obvio que, uma vez que a tendencia da igreja evangelica brasileira é sempre de “importar”, as editoras evangélicas preferem investir em um negócio garantido (publicar livros de conhecidos teólogos americanos) do que em se “arriscar” publicando livros de autores nacionais, ainda que os segundos conheçam melhor os problemas da igreja brasileira, estando mais aptos para tratar os temas pertinentes à nossa teologia (ou à ausencia dela), do que os escritores norteamericanos.

É em meio a essa falta de material apologético elaborado por crentes brasileiros, que o "Apologética Blog" encontra sua justificativa. É imperativo que a igreja brasileira adquira um profundo “gosto” pela apologética: caso contrário, ela fatalmente deixará de ser evangélica, e não somente isso, mas corre o risco de deixar de ser “igreja”.

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Fonte: Púlpito Cristão


Sobre o autor:

Esposo, pai, missionário e teólogo, Leonardo é Bacharel em Teologia e Missiologia, e mestre em teologia com especialização em Teologia Sistemática e Filosofia da Religião. É membro da OTEB - Ordem dos Teólogos Evangélicos do Brasil, e da OTEAL - Ordem dos Teólogos Evangélicos da América Latina. Atualmente reside na cidade de Piura, no norte do Peru.

Edita um blog de grande audiência chamado Pulpito Cristão, onde denuncia os modismos, as heresias e os extremismos da igreja contemporânea.

3 comentários:

ALFJr. 24 de maio de 2009 09:24  

Obrigado pelas reflexões, tão pertinentes.
Já te adicionei na minha lista de blog's visitados no blog http://libertosparapensar.blogspot.com

abraço

Miss. Marli 27 de maio de 2009 06:22  

Jesus desceu até nós, assumindo uma carcaça humana, se identificou com os homens, mas não perdeu a sua identidade. É isso que a igreja deve imitar.

Parabéns pelo seu blog! Estou seguindo ele.

Abraços.

Ane e Manu 15 de março de 2011 17:39  

Gostei do seu blog a partir de hoje sou seguidora, gostaria que seguisse o meu também http://teismoracional.blogspot.com/ para debatermos, trocarmos postagens e conrinuarmos proclamando a palavra de Deus...

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